16ª Edição “Serra Acima”/Na
rota dos castelos

Texto:
José Morais
Fotos: Helena e José Morais
Em 1994
iniciava-se um novo projecto na Federação Portuguesa de
Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta (FPCUB), em
parceria com um grupo de cicloturismo muito conhecido na
altura, os “Gatos Assanhados”, o projecto de minha
autoria, vinha ao encontro da falta de um evento que
pudesse marcar a modalidade, e solicitado por muitos
amantes da mesma.
A
primeira edição de “Serra Acima” foi realizada em Junho
de 1994, sendo feita a ligação entre Castelo Branco e a
Covilhã no primeiro dia, e no segundo a subida ao alto
da Torre, com partida da Covilhã, dai em diante, os
eventos foram-se realizando, umas vezes com saídas de
Castelo Branco, outras do Fundão, em 2005 e como
alternativa e forma de divulgar mais o interior da
beira, Monsanto, a aldeia mais portuguesa de Portugal
foi o local escolhido da partida, com a passagem pela
aldeia de Salvador, ficou da parte da autarquia, o
interesse de se fazer a saída de futuras edições, o que
tem vindo a acontecer desde 2006.
Dezasseis anos depois, o sonho de subir ao alto da Torre
é uma grande realidade, e uma grande satisfação, já que
passou a ser um evento internacional, onde nesta edição
pudemos contar com a participação de uma equipa
espanhola de “Moraleja”, e a participação de dois
franceses, que fizeram questão de vir directamente de
França para participar, foram eles os irmãos Gilles e
Jean Duret.

O evento:
Sábado
dia 12, a 16ª edição de “Serra Acima” este ano
denominada de “Rotas dos Castelos”, já que os castelos
de Penamacor, Sabugal, Sortelha e Belmonte, faziam parte
do trajecto. Salvador, foi mais um ano local de partida,
bem cedo começaram a chegar os participantes oriundos de
diversos pontos do país, pelas 12,30 h, era servido o
almoço. Pelas 15 h, era dada a partida em pelotão, pela
frente havia 89 quilómetros para percorrer, os ciclistas
iniciavam assim as primeiras pedaladas com um circuito
pela aldeia de Salvador que muito aplaudiu a caravana,
rumando depois a Penamacor, Meimoa, Vale da Sr.ª da
Póvoa, onde foi feita uma paragem para abastecimento. De
volta à estrada, as pedaladas seguiram por Terreiro das
Bruxas, Sabugal, Sortelha, Belmonte e Vela, uma aldeia
situada a cerca de 20 quilómetros da Guarda, onde as
pedaladas deste primeiro dia vieram a terminar, à espera
dos participantes, e depois de um bom e merecido banho,
esperava um bom e típico jantar da região, oferecido
pelo Clube de Cicloturismo da Vela, que em muito apoiou
o evento.
Domingo
dia 13, a etapa rainha, na Vela o local de chegada de
véspera, era também o local da partida para o grande
desafio, a chegada ao alto da Torre. Depois de um
magnífico pequeno-almoço também oferecido pelo Grupo de
Cicloturismo local, pelas 8,30 era dada a partida, a
primeira equipa começava a rolar, e pela frente cerca de
50 quilómetros para percorrer, em total roda livre, por
equipas, as quais foram saindo até às 9,30, hora da
última a fazer-se à estrada, a equipa da Pedalheira de
Barcelos.
A 16ª
edição de “Serra Acima” juntou este ano 45 equipas, numa
totalidade de 394 participantes, 47 dos quais eram
individuais. O trajecto era excelente, com bom piso,
propicio assim a boas e fortes pedaladas, no sábado com
uma dificuldade média. No domingo, os primeiros
quilómetros de dificuldade baixa, bom para rolar e
aquecer, depois os últimos 24, de alta dificuldade, já
que a subida até ao alto da Torre, é sem dúvida das mais
difíceis de Portugal. Aqui pudemos ver a Serra repleta
de ciclistas, uns com mais dificuldades, outros com
menores, os objectivos era o de conseguir a subida, e
foi conseguido por muitos, o grande desafio foi
superado, outros ficaram pelo caminho, com uma promessa,
a de voltar no próximo ano.

O comentário final:
A
subida da Serra da Estrela ao alto da Torre, continua a
ser um grande desafio para todos aqueles que adoram o
ciclismo, é certo de que para o conseguir, terá de haver
uma preparação mínima, mesmo assim, muitos são os que
anualmente tentam subir. Todos os anos continuamos a ver
repetentes, e outras caras novas, o que nos dá mais
força a continuar, a descobrir novos trajectos, e novos
desafios, desde o inicio deste projecto, os números tem
sido muito equilibrados, existindo algumas edições onde
os mesmos ultrapassaram os 650 participantes, em 2009
quase 400 participantes é muito positivo, já que a
actual crise e a recessão, tem dado origem a cortes em
muitas equipas, pela falta de apoios.
“Serra
Acima” superou mais uma vez tudo e todos, e os números
assim o demonstram, mas para que isso pudesse acontecer
existiram grandes apoios que não podemos deixar de
referenciar, a Junta de Freguesia de Salvador, na pessoa
do seu Presidente, que mais uma vez apoiou com um grande
almoço. A Câmara Municipal de Penamacor, na pessoa do
seu Vice-Presidente, mais uma vez patrocinou o
policiamento e abastecimento. O Clube de Cicloturismo da
Vela, mais uma vez no seu melhor, com a oferta do jantar
na chegada de sábado, o pequeno-almoço na partida de
domingo, banhos, e ainda pavilhão para pernoita de
muitos participantes.
Sem
estes apoios, seria muito difícil um evento deste
género, o qual a Federação Portuguesa de Cicloturismo e
Utilizadores de Bicicleta (FPCUB), como organizadora do
evento, vem agradecer, como a participação de todos os
cicloturistas presentes, já que também são eles que
completam este grande evento.
Em
2009, foi a internacionalização de “Serra Acima”, 16
anos depois, o evento continua bem vivo, e a subida ao
alto da “Torre”, é uma das preferidas de muitos. Em
2010, ainda não existe um trajecto definido, apesar de
existirem já algumas ideias, no inicio do ano a
revelação será feita, com uma certeza, a “Torre” será o
local de chegada, a partida estará por agora nos
segredos dos deuses.
Com um
até breve, num dos muitos eventos realizados por ai,
ficam os votos de, bons passeios, boas pedaladas, e
alguma história dos castelos, denominação do evento
“Serra Acima” deste ano.

O castelo medieval de Penamacor
À época da Reconquista cristã da península Ibérica, os
domínios de Penamacor foram conquistados por D. Sancho I
(1185-1211), que os doou à Ordem dos Templários, na
pessoa de seu Mestre no país, D. Gualdim Pais (1189).
Visando o seu repovoamento, uma década mais tarde o
soberano lhe concedeu Carta de Foral (1199), ratificado
em
1209.
Datará possivelmente dessa época o início da edificação
do castelo. Recentes pesquisas arqueológicas no Cimo da
Vila (2003) ainda não confirmam uma ocupação anterior.
Diante do progresso do seu povoamento, D. Afonso III
(1248-1279) aí instituiu uma feira anual (1262),
atribuindo-se a seu filho e sucessor, D. Dinis
(1279-1325), a construção de uma segunda cintura de
muralhas no castelo, bem como o início da torre de
menagem e da cerca da vila (c. 1300). Não foram
identificadas informações sobre o senhorio de seus
domínios diante da extinção da Ordem, nesse reinado.
Posteriormente, sob o reinado de D. Fernando
(1367-1383), foi iniciada uma barbacã para complemento
da defesa do castelo, obra concluída sob D. João I
(1385-1433). Durante a crise de 1383-1385, a vila e seu
castelo tomaram o partido pelo Mestre de Avis.
No início do século XVI, a vila e sua defesa conheceram
obras de remodelação, que se encontram figuradas por
Duarte de Armas (Livro das Fortalezas, c. 1509),
integradas pelo castelo, dominado pela torre de menagem
(que informa em nota: a torre de menagem nom era
acabada ao tempo que eu aly estaua), a cerca urbana
e a barbacã.
A partir de meados do século XVII, no contexto da Guerra
da Restauração da independência portuguesa, Penamacor
readquiriu importância estratégica sobre a fronteira.
Por essa razão, o Conselho de Guerra de D. João IV
(1640-1656) determinou a modernização e reforço das suas
defesas, visando a sua adaptação aos avanços da
artilharia. O empreendimento, a cargo do Governador das
Armas da Beira, marquês de Castelo Melhor, resultou no
reforço dos muros da vila com a construção de seis
baluartes complementados por mais três meios-baluartes.
Poucas décadas mais tarde, um trágico acidente fez
saltar a torre de menagem, então utilizada como paiol de
pólvora, destruindo-a (1739).
O progresso urbano registado no século XIX trouxe a
retirada da guarnição militar de Penamacor (1834),
registando-se a progressiva destruição das muralhas da
vila, com o reaproveitamento da pedra pelos habitantes
da região. Nesse período destacou-se a demolição da
chamada Porta de Santo António, com a aquisição
da sua pedra pela municipalidade (1867). Pouco depois,
em 1874, Baltasar Pereira da Silva pediu autorização
para se desmantelar um baluarte, tendo a Câmara
concedido 30 carros de bois para o transporte do
material.

O castelo medieval
de Sabugal
À época da Reconquista cristã da península Ibérica, as
terras do Sabugal foram inicialmente conquistadas
possivelmente por D. Afonso Henriques (1112-1185) em
1160, vindo a ser perdidas logo após para o reino de
Leão.
Em 1190, Afonso IX de Leão criou o Concelho do Sabugal,
tendo a vila sido fundada por volta de 1224, época em
que foi principiado um reduto defensivo.
Integrante do território de Ribacôa, conquistado a Leão
por D. Dinis (1279-1325), recebeu Carta de Foral daquele
soberano português em 1296. Entretanto, a sua posse
definitiva para Portugal só foi assegurada pelo Tratado
de Alcanices em 1297. O soberano, a partir de então,
procurou consolidar essas fronteiras, fazendo reedificar
o Castelo de Alfaiates, o Castelo de Almeida, o Castelo
Bom, o Castelo Melhor, o Castelo Mendo, o Castelo
Rodrigo, o Castelo de Pinhel, o Castelo do Sabugal e o
Castelo de Vilar Maior.
Iniciam-se, nesse contexto, os trabalhos de ampliação e
reforma da sua defesa casteleira, desimpedindo-se o
espaço intramuros onde se erguiam algumas casas da
povoação e reforçando-se as muralhas que ganharam por
dois grandes torreões dominados por uma alta torre de
Menagem. As obras, referidas por Rui de Pina (Crónica de
D. Dinis), foram concluídas em 1303, sob a direcção de
Frei Pedro, do Mosteiro de Alcobaça. Credita-se ainda, a
este soberano, o estabelecimento, nestes domínios, de um
couto de homiziados, privilégio que visava atrair
povoadores. Alguns documentos confirmam que este
privilégio se encontrava em vigor ainda em fins do
século XV.
No reinado de D. Manuel I (1495-1521), o Castelo do
Sabugal encontra-se figurado por Duarte de Armas (Livro
das Fortalezas, c. 1509), tendo recebido obras de
beneficiação, concluídas em 1515, conforme inscrição
epigráfica sobre o portão principal. Este soberano
concedeu o Foral Novo à vila em 1 de Junho de
1515.

O castelo medieval de Sortelha
À época da Reconquista cristã da península Ibérica, Pena
Sortelha, como então era chamada, constituiu-se em
defesa da região fronteiriça, disputada entre Portugal e
Castela. A partir de 1187, D. Sancho I (1185-1211) tomou
medidas para repovoar o lugar, e foi o seu neto
homónimo, D. Sancho II que concedeu foral à vila (1228),
época provável da edificação do castelo. A cerca da vila
seria beneficiada por D. Dinis no século XIII que, a
partir da assinatura do Tratado de Alcanises (1297),
fixou as fronteiras para além das terras de Riba-Côa. No
século seguinte, foi erguida uma nova cerca por
iniciativa de D. Fernando.
No século XV sabe-se que o alcaide do castelo era Manuel
Sardinha, sucedendo-lhe Pêro Zuzarte.
Em 1510, D. Manuel I (1495-1521) renovou o foral da
Vila, mencionando que os seus habitantes não estavam
obrigados a dar hospedaria aos grandes e pequenos do
reino, se essa fosse a vontade do povo de Sortelha. Esse
soberano também iniciou uma campanha de obras no
castelo, dentre as quais subsiste a emblemática
manuelina sobre a porta. Em 1522 Garcia Zuzarte
tornou-se alcaide-mor. Nesse século ainda, o nobre D.
Luís da Silveira, guarda-mor de D. Manuel I e de D. João
III (1521-1557), adquiriu o castelo, tornando-se seu
alcaide, conferindo-lhe D. João III o título de Conde de
Sortelha.

O castelo medieval de Belmonte
As primeiras notícias históricas acerca destes domínios
datam do reinado de D. Afonso Henriques (1112-1185),
quando o senhorio das terras de Centum Cellas
teria sido doado ao bispo de Coimbra (6 de Maio de
1168). Mais tarde, D. Sancho I (1185-1211), concedeu
Carta de Foral à Vila (1199), que então integrava o
senhorio. Posteriormente, Afonso III de Portugal
(1248-1279) determinou ao bispo de Coimbra, D. Egas
Tafes, que procedesse a construção de uma torre e
castelo. Neste período, o bispo da Guarda comprou e
vendeu casas no recinto do castelo (1253) e, três anos
mais tarde, a 27 de Abril, o Papa Alexandre IV doou o
Castelo de Belmonte e as povoações de Inguias e Olas de
Godim à Sé da Guarda, com todos os direitos episcopais,
ficando a Sé de Coimbra a manter as possessões laicas. A
torre e o castelo estariam possivelmente concluídos sob
o reinado de D. Dinis (1279-1325). Essas referências são
confirmadas por vestígios arqueológicos dos finais do
século XII e início do século XIII da demolição de casas
no interior da vila para a construção do castelo e da
torre de menagem.
Após o estabelecimento do Tratado de Alcanises (1297),
com o consequente alargamento das fronteiras para o
oeste, o Castelo de Belmonte perdeu importância
estratégica, enquanto que a povoação se desenvolvia
extramuros.
No contexto da crise de 1383-1385, o castelo perdeu
parte das suas muralhas. Um pouco mais tarde, o bispado
de Coimbra permutou a vila de Belmonte, juntamente com o
couto de São Romão, pela vila de Arganil com Antão
Martim Vasques da Cunha (1392). No reinado de D. João I
(1385-1433), tendo o alcaide de Belmonte, entre 1397 e
1398, aderido ao partido do infante D. Dinis, o soberano
confiscou-lhe a vila e o castelo, doando-os como
alcaidaria a Luís Álvares Cabral, passando a família
Cabral a residir no castelo. O novo senhor procedeu a
reconstrução pano da muralha a Norte, onde se abriu uma
nova Porta da Traição, acrescentando-se um cubelo
para reforço.
No século XV, a vila e seu castelo foram doados por D.
Afonso V (1438-1481) a Fernão Cabral (1466), pai de
Pedro Álvares Cabral, que prosseguiu a adaptação desta
edificação militar a residência senhorial.

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